• Sábado, 15 de Agosto de 2026

ENTRE ANÚNCIOS E A REALIDADE: O DRAMA DA ÁGUA NA RESERVA INDÍGENA DE DOURADOS CONTINUA

FONTE: JORNAL INDíGENA DOURADOS POR: WILSON MATOS CREDITO: REPRODUçãO/SANESUL


O anúncio de um investimento de aproximadamente R$ 54 milhões para a implantação de dois superpoços, sistema elétrico e bombeamento na Reserva Indígena de Dourados provoca, ao mesmo tempo, esperança e profunda preocupação.

Embora o valor seja expressivo, lideranças e pessoas que acompanham o tema alertam que a obra, da forma como vem sendo apresentada, não resolve integralmente o problema do abastecimento. Em reunião realizada no ano passado no Ministério Público Federal, engenheiros da SESAI já haviam apontado que, sem a implantação de uma nova rede de distribuição, o sistema se tornaria limitado, pois a rede atual não suporta a pressão necessária.

Naquele momento, segundo participantes da reunião, a Sanesul aceitava a perfuração dos superpoços e a implantação do sistema de funcionamento, e inclusive a construção de um novo sistema de distribuição, mas se recusava a assumir a manutenção. O impasse permanece no centro do debate.

Na semana passada, uma pré-reunião entre engenheiros da SESAI e lideranças da aldeia, entre elas o cacique Vilmar, reforçou a complexidade do cenário. Foi solicitada uma reunião geral com a comunidade, prevista para este mês, para explicar que o governo federal não dispõe de instrumento legal que permita custear a distribuição e a manutenção dos sistemas, sendo apresentada como alternativa a adoção de uma taxa mínima subsidiada.

O debate expõe uma ferida antiga: a crise hídrica crônica na Reserva Indígena de Dourados. Há anos, famílias convivem com a falta de água, o que compromete a saúde, a alimentação, a higiene e a dignidade, atingindo de forma cruel crianças e idosos.

Para algumas lideranças, é necessário enfrentar com honestidade um tema sensível: não pagar não tem significado água gratuita, mas sim ausência de água. O custo real vem sendo pago de outra forma — com doença, sofrimento, humilhação e morte social.

“Estamos pagando um preço muito alto por esse impasse. Estamos oferecendo o nosso sofrimento como espetáculo”, resume uma liderança indígena. “Um espetáculo que muitas vezes interessa mais às elites políticas e econômicas do que às famílias que continuam sem água.”

Enquanto anúncios oficiais se multiplicam, a realidade nas aldeias Jaguapiru e Bororó continua a mesma: sem água não há dignidade, não há saúde e não há futuro. O desafio que se impõe agora é transformar investimentos em soluções completas, permanentes e juridicamente viáveis, capazes de garantir, de fato, o direito humano fundamental à água.

 

 



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