A DEGRADAÇÃO DO DECORO E O DESCASO COM O ELEITOR

A banalização do mandato parlamentar deixa de ser um evento isolado para se tornar uma rotina preocupante. Entre gestos obscenos, assédios e ofensas, o eleitor assiste, atônito, à erosão da seriedade institucional

POR: REDAçãO, PRONTO FALEI CREDITO: REPRODUçãO


vereadora Susenilda Costa

O que deveria ser o templo da democracia e o palco para o debate de soluções para a sociedade brasileira tornou-se, com frequência alarmante, uma arena de baixarias. Das Câmaras Municipais aos corredores do Congresso Nacional, a falta de respeito ao cidadão — aquele que, pelo voto, outorgou a autoridade ao parlamentar — é estampada em ações escrachadas, muitas vezes registradas em transmissões ao vivo.


O comportamento observado não é apenas uma quebra de etiqueta; é uma violação do princípio fundamental do decoro parlamentar. O parlamentar, investido de um mandato, é um agente público cujas ações deveriam refletir a dignidade do cargo. No entanto, o cenário atual é de espetacularização da grosseria.


A indignação popular não é infundada. O histórico recente mostra que a conduta inadequada não conhece fronteiras geográficas. Relembre casos que escandalizaram a opinião pública:

- O CASO DE UBAJARA (CE): Recentemente, a Câmara Municipal de Ubajara viu-se no centro de uma polêmica após a vereadora Susenilda Costa ser flagrada, durante uma transmissão oficial, realizando um gesto manual com conotação sexual. O episódio, que ocorreu durante uma discussão sobre o horário das sessões, dividiu a opinião pública e reacendeu o debate sobre o que se espera de um agente político em pleno exercício de suas funções.

- O ASSÉDIO EM DOURADOS (MS): Em junho de 2015, um caso grave manchou a história da Câmara de Dourados. A então vereadora Virgínia Magrini denunciou o colega, vereador Maurício Lemes, por assédio sexual. Segundo o relato, o parlamentar teria passado a mão nas nádegas de Magrini ao final de uma sessão. O caso foi um divisor de águas na discussão sobre a segurança e o respeito às mulheres no ambiente legislativo brasileiro.


A CRISE DE DECORO NO CENÁRIO NACIONAL
A banalização não se restringe ao legislativo municipal. O cenário nacional também tem sido palco de comportamentos que desafiam o bom senso e o respeito mútuo:

1 - ARTHUR DO VAL (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE SÃO PAULO): Em 2022, o então deputado estadual protagonizou um dos maiores escândalos de decoro dos últimos anos ao ter áudios vazados com falas sexistas e degradantes sobre mulheres ucranianas. O caso resultou na cassação de seu mandato, evidenciando que, embora a impunidade seja um medo frequente do eleitor, há mecanismos — ainda que lentos — de resposta institucional.

2 - EDUARDO BOLSONARO (CÂMARA DOS DEPUTADOS): Diversos episódios de embates acalorados em comissões, envolvendo gritos, xingamentos e o uso de palavras de baixo calão contra outros parlamentares, tornaram-se rotina. Tais eventos transformam sessões deliberativas em verdadeiros "rings", onde o foco, que deveria ser o projeto de lei, perde espaço para o conflito pessoal e a agressividade gratuita.

3 - FERNANDO COLLOR (SENADO FEDERAL): Mesmo em instâncias superiores, o uso de termos ofensivos e a perda de compostura têm registros históricos. O ex-senador, em diversos momentos de sua trajetória, protagonizou episódios de agressividade verbal que feriram o decoro exigido pela Casa Alta, demonstrando que a arrogância e o desrespeito não escolhem partido ou cargo.


O IMPACTO: A EROSÃO DA CONFIANÇA
O cidadão que assiste a essas cenas sente, quase invariavelmente, um misto de revolta e descrença. Quando um parlamentar utiliza o tempo de tribuna para ofender um colega, fazer gestos obscenos ou praticar assédio, ele não está apenas atacando seu par; ele está desrespeitando os milhares de votos que o colocaram ali.


A "política do espetáculo" tem um custo alto. Ela afasta o jovem da participação cívica, gera ceticismo sobre a importância das instituições e empobrece o debate público. O exercício do mandato exige sobriedade, preparo e, acima de tudo, respeito. Enquanto os conselhos de ética e as comissões de decoro parlamentar se mostrarem morosos ou coniventes com essas atitudes, o eleitor continuará a ver, na ponta da tela, a triste imagem de representantes que, ao invés de liderar pelo exemplo, optam por se destacar pela vergonha.


Este artigo reflete um cenário de crescente preocupação com a postura de agentes públicos. A democracia não sobrevive sem decoro.

 

 

 



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