• Segunda, 17 de Agosto de 2026

MS: REDE DE PROTEÇÃO É FALHA, MAS CRIANÇAS CORREM RISCO ATÉ DENTRO DE CASA

FONTE: FOLHA DE DOURADOS POR: REDAçãO CREDITO: REDES SOCIAIS


O lar, que deveria ser o ambiente mais seguro para uma criança, é também o principal cenário de violência infantil. De acordo com o Atlas da Violência 2025, 67,8% das agressões contra crianças de zero a quatro anos acontecem dentro de casa. Entre crianças de cinco a 14 anos, o índice também é alto: 65,9%.

A psicanalista Viviane Vaz, coordenadora do projeto Nova Transforma — que atua no enfrentamento à violência e à exploração sexual de crianças e mulheres — reforça:

“NÃO, AS CRIANÇAS NÃO ESTÃO SEGURAS NEM EM CASA, NÃO DÁ PRA CONFIAR EM NINGUÉM”

Embora a frase soe dura, os casos comprovam a realidade.

Um dos exemplos mais marcantes é o de Sophia Ocampo, morta em janeiro de 2023 após sofrer agressões constantes e abuso sexual. O crime começou dentro da própria casa. O padrasto, Christian Campoçano, e a mãe, Stephanie de Jesus, foram condenados e estão presos desde a morte da menina. Antes do crime fatal, Sophia havia sido atendida diversas vezes em unidades de saúde, e o caso era de conhecimento do Conselho Tutelar e do Ministério Público de Mato Grosso do Sul.

Outro caso brutal aconteceu em maio deste ano. Sophie Eugênia Borges Medeiros, com apenas 10 meses, foi assassinada junto com a mãe, Vanessa Eugênia Medeiros, pelo próprio pai, João Augusto Borges de Almeida. Ele ateou fogo nos corpos e, em seguida, foi trabalhar como se nada tivesse ocorrido. Não havia qualquer denúncia contra ele antes do crime.

No episódio mais recente, uma menina de seis anos foi levada de casa por Marcos Willian Teixeira Timóteo — amigo da família — sob o pretexto de um passeio. O homem a estuprou e assassinou em sua residência, na Vila Carvalho. O Conselho Tutelar já acompanhava a criança por situação de vulnerabilidade social, segundo informações do Campo Grande News.

“Esses agressores geralmente são conhecidos da família, pessoas que frequentam a casa. Para a criança, se um adulto próximo é amigo dos pais, não parece haver perigo. Isso aumenta ainda mais sua vulnerabilidade”, explica Viviane.

Para a psicanalista, a responsabilidade não é exclusiva da família ou dos órgãos públicos.

“É FÁCIL JULGAR O CONSELHO TUTELAR OU OS PAIS. MAS E NÓS, ENQUANTO SOCIEDADE? MUITAS VEZES, O DISCURSO SOCIAL REFORÇA O ÓDIO E A VIOLÊNCIA AO INVÉS DA PROTEÇÃO”, CRITICA.

Ela destaca ainda que pais e responsáveis precisam estar mais atentos e desconfiados. “Abusadores observam. Eles analisam comportamentos, identificam crianças mais soltas, que falam com qualquer um. São alvos fáceis para quem quer abusar”, alerta.

O projeto Nova Transforma, coordenado por Viviane, oferece apoio psicossocial a crianças, adolescentes e mulheres encaminhadas por órgãos como a Defensoria Pública, Ministério Público e o Tribunal de Justiça. A especialista afirma que muitos casos de abuso não são denunciados por medo, vergonha ou por acharem que “foi só uma vez”.

“Quem não se posiciona, favorece o crime”, afirma. “Estupro não é só conjunção carnal. Muitas adolescentes chegam aqui com ideação suicida porque a própria família desacredita do abuso. Questionam se não foi a vítima que provocou”, revela.

Os dados do Atlas da Violência 2025 — elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) — mostram que, entre 2013 e 2023, 42 crianças de zero a quatro anos foram vítimas de homicídio em Mato Grosso do Sul. Entre as de cinco a 14 anos, foram 74 casos. As principais formas de assassinato foram com arma de fogo, objetos perfurantes como facas, e instrumentos contundentes, como socos, pedras e martelos.

Além das casas, outros ambientes onde essas violências acontecem são escolas e vias públicas, o que reforça o alerta: nenhuma criança está totalmente protegida sem uma rede vigilante, acolhedora e atuante.



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